#23 - Opening night
Sobre estreias, jovens envelhecidos e o sentido de escrever
1.
Andei lendo alguns textos de xóvens autores sobre escrita aqui no Substack. Ou, melhor dizendo, sobre ser publicado, encontrar leitores e divulgar seu trabalho. Às vezes parece que é sobre isso — ou, para usar a locutio contemporânea, “é sobre”.
Há essa postura profissional precoce, de camisas de manga curta e meia soquete, que eu considero francamente intragável. Um carreirismo que permeia certas áulicas escolinhas e uma ou duas gerações que enxergam a vida literária como um posto cartorial. Parecem personagens de um romance russo tramando para galgar alguma hierarquia palaciana ou receber uma condecoração no Rotary de Pindamonhangaba. Em nenhum momento desses textos, alguns inclusive sobre o fatal romance de estreia, leio uma linha sobre as razões centrais que alguém deveria ter para escrever, que é LER e SER.
Querer, precisar, desejar mais do que qualquer outra coisa ler um livro que ainda não existe. E que, por isso, precisa ser escrito pela única pessoa capaz de escrevê-lo no mundo: você. E daí subir essa montanha íngreme, impossível vista do sopé, para escrever aquilo que precisa ler. O que você precisa ler para entender mais sobre você e sobre o mundo. Para ser e se construir no mundo, reconhecer a si mesmo, e se tornar aquilo que se é.
Você escreve para entender o que pensa relendo o que acabou de escrever, como dizia a Flannery O’Connor, para criar um mundo onde você possa viver e respirar, como queria a Anaïs Nin, ou, como sugeriu o Italo Calvino no final de As Cidades Invisíveis, para reconhecer o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço — enfim, certamente não é para conseguir um contrato com uma editora de São Paulo e sentar na mesa certa do Copanzinho ou de um boteco em Paraty.
Nessa caverna vertiginosa, onde você escreve querosene para alimentar a lanterna, você não pensa em ser publicado, ter leitores ou iniciar seu seu projetinho literário. Você está mais sozinho do que nunca. Acompanhado, que delícia, apenas pelas próprias sombras e fantasmas.
2.
“Ain, Cuenca, você é muito intenso, uiuiui.” Ok, então vamos combinar que tudo o que você não deve usar como motivo para escrever é esse ethos cafona de fuinha, de náufrago do capitalismo tardio, em busca de um cargo funcional com título de “escritor”? O buraco é muito mais embaixo — ou lá no alto, perceba.
Como diria o Faulkner, “Don’t be ‘a writer’. Be writing.” Repita, tatue se necessário.
Ainda mais num romance de estreia, que é normalmente quando o autor raspa o tacho, joga o coração na mesa e a chave fora. Coisa arriscada. Outro dia, a Cosac me pediu um blurb sobre Apneia, o belo e corajoso primeiro livro da Esther Faingold. O que eu escrevi:
“Apneia é um livro urgente. Sua narradora escreve uma carta na iminência de uma terapia de eletrochoque que pode zerar sua memória. Essa luta contra o tempo provoca uma rara tensão entre a autobiografia e o romance de ficção, entre o diário e a novela epistolar. Faingold reivindica a ambiguidade dessa zona fronteiriça entre gêneros e formas com o talento e o frescor de quem navega no escuro e é iluminada pelas frases que escreve, de palavra em palavra, com a intensidade alucinada e apaixonada presente nos melhores livros de estreia.
Costuma-se dizer que o primeiro romance é sempre um ato de exorcismo, um grito de guerra, um mapa de obsessões, uma despedida de quem a pessoa foi até escrever aquilo, uma declaração de intenções de quem será aquela nova voz. E Apneia é tudo isso: nascimento e dissolução, solve et coagula em fogo e fúria, de uma autora que escreve para provar que existe, para que o mundo exista, como se a vida dependesse disso — porque sabe que a vida depende disso.”
O que está em jogo num romance de estreia não é uma carreira no meio literário, essa coisa minúscula. A aposta aqui é de outra ordem: a própria existência de quem escreve.
3.
Quando eu tinha vinte e poucos anos, morava numa quitinete de vinte metros quadrados na rua Santa Clara, em Copacabana, num prédio que tinha uns trinta apartamentos por andar. Era um pardieiro. Eu escrevia offline, num computador velho, perseguindo o cursor piscando num monitor de fósforo verde. Terminei um longo relacionamento, entrei numa crise de depressão profunda e fiquei completamente pirado, no que comecei a cozinhar narrativas fragmentadas que falavam daquele lugar e do que eu estava vivendo na virada do milênio, personagens que iam e voltavam, uma estrutura que eu mal entendia enquanto montava, mas que me fazia seguir vivo, respirando.
Eu passei a viver na prática aquela frase da Marguerite Duras: “Encontrar-se num buraco, no fundo de um buraco, em quase total solidão, e descobrir que só a escrita pode salvar você.” Entender isso no corpo talvez tenha sido a coisa mais próxima a um satori que eu já vivi.
Depois, minha trajetória editorial contou com muita sorte e uma dose de milagre: foi uma amiga quem mandou meus originais para seus primeiros editores. Hoje em dia, vejo o Corpo Presente como um livro de estreia com defeitos e acertos que ainda me assombram, mas o que fica para mim é que foi escrito no escuro de um conjugado por uma pessoa que não estava pensando no futuro.

Entrei na programação principal da primeira Flip, lançando um conto, quando o livro ainda nem tinha chegado ao prelo, embora já estivesse aprovado e contratado por uma casa editorial, e trechos desse texto já tivessem saído na revista Ficções. Toda a maravilha e loucura dos meus últimos vinte e cinco anos devo a essas publicações. Mas nada disso justifica coisa alguma, porque simplesmente não escrevi o livro para chegar ali.
É possível inclusive que publicar tenha me complicado a escrita dos romances seguintes e, pensando bem, todos parecem novos livros de estreia, com narradores completamente diferentes uns dos outros. Talvez porque até hoje eu tente emular aquele quarto escuro, levantando um muro entre minha escrita, enquanto acontece, e o mundinho literário. E isso é também cavar um abismo entre o livro anterior e o inédito, precisando tentar aprender a escrever, quase que do zero, a cada novo narrador. (Seria isso finalmente um projeto ou só estupidez?)
Enfim, não se enganem: minha gratidão é infinita, essa publicação mudou minha vida, é maravilhoso ser lido, publicado, traduzido, criticado, viajado etc. Acredito que o caminho editorial deva ser bravamente perseguido quando um primeiro livro já está escrito, inclusive como um ato de suprema modéstia do seu autor.
Ainda assim, a ideia de parir um romance de estreia, ficção literária, tendo como objetivo principal ser aceito por esse meio me parece, e juro que estou sendo suave, uma abominação completa.
4.
Tempos atrás, uma amiga cineasta entrou em crise. Tinha um lindo filme que estava demorando para ser aprovado por festivais, é um timing chato e doloroso esse, e ela falou em parar de filmar, abandonar mesmo a carreira. Eu respondi na lata: se você filma para passar em festival, você tem que parar de fazer cinema. Porque a motivação não pode ser a estreia ou o circuito, como a da escrita não é a publicação em livro — e sim o próprio processo. É lá que está o ouro, num set em estúdio ou filmando num igarapé em Altamira, num conjugado em Copa ou na biblioteca pública de Nova York, naquele momento em que você enxerga algo pela primeira vez: uma faísca, susto, iluminação.
Em 1942, o Mario de Andrade escreveu ao jovem Fernando Sabino:
“No dia em que você tiver a maior consagração possível, um banquete de cinco mil talheres, um congresso de intelectuais te proclamando príncipe, rei, deus das artes nacionais e internacionais, quando a festa acabar você terá só um sentimento dentro de si: decepção. A festa foi pouca, você sentirá vagamente que a consagração foi pouca. Coisa danada o destino, a psicologia do artista: esse castigo de ser artista, essa decepção eternamente insatisfeita, que vem desse desequilíbrio insanável, dessa duplicidade irreconciliável: a gente dar tudo o que tem, todo trabalho, todo pensamento, toda dor, em proveito de outrem, da obra de arte, esse elemento intermediário.”
Aqui mais uma vez eu me permito discordar do Mario. A decepção talvez não venha de nenhum “elemento intermediário” da obra de arte, e sim de um deslocamento interno que confunde vontade com desejo, que não entende onde está a recompensa e acha que vai encontrá-la num banquete.
É o processo a manifestação da verdadeira vontade do artista, é o momento solitário o ápice da coisa. O resto é uma consequência desejada e bonita — eu já ganhei um prêmio e um par de seleções e residências, juro que é ótimo — mas não é fundamentalmente por isso que fazemos o que fazemos.
É o ato de escrever o banquete de cinco mil talheres; o processo, e só ele, a maior recompensa.
5.
Termino com uma citação do Jorge Larrosa que aprendi com a poeta Diana de Hollanda e que, desde então, religiosamente leio aos alunos em todo início de oficina:
Todo mundo sabe que Aristóteles definiu o homem como zôon lógon échon. A tradução desta expressão, porém, é muito mais “vivente dotado de palavra” do que “animal dotado de razão” ou “animal racional”. Se há uma tradução que realmente trai, no pior sentido da palavra, é justamente essa de traduzir logos por ratio. E a transformação de zôon, vivente, em animal. O homem é um vivente com palavra. E isto não significa que o homem tenha a palavra ou a linguagem como uma coisa, ou uma faculdade, ou uma ferramenta, mas que o homem é palavra, que o homem é enquanto palavra, que todo humano tem a ver com a palavra, se dá em palavra, está tecido de palavras, que o modo de viver próprio desse vivente, que é o homem, se dá na palavra e como palavra. Por isso, atividades como considerar as palavras, criticar as palavras, eleger as palavras, cuidar das palavras, inventar palavras, jogar com as palavras, impor palavras, proibir palavras, transformar palavras etc. não são atividades ocas ou vazias, não são mero palavrório. Quando fazemos coisas com as palavras, do que se trata é de como damos sentido ao que somos e ao que nos acontece, de como correlacionamos as palavras e as coisas, de como nomeamos o que vemos ou o que sentimos e de como vemos ou sentimos o que nomeamos.
E com esse poemito do Leonard Cohen:
O único poema
Sou o único
que pode escrevê-lo
Não me suicidei
quando as coisas deram errado
Não acabei
nas drogas ou no magistério
Tentei dormir
mas quando não conseguia dormir
Aprendi a escrever
Aprendi a escrever
o que pudesse ser lido
em noites como essa
por alguém assim como eu(tradução de Fernando Koproski)






Bravíssimo. Ou, como dizem os mais eruditos, brabíssimo.
Conversa para abrir uma garrafita.