#20 - Noite escura
Sobre o poema “A noite escura da alma” (1578) de João da Cruz interpolado com um fragmento de “Terra dos homens” (1939) de Antoine de Saint-Exupéry — as notas de rodapé são, quase todas, minhas
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Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamada
Oh! ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
Já minha casa estando sossegada. 1
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Pugilista vitorioso, mas bem marcado pelos grandes golpes recebidos, você revivia sua estranha aventura, libertava-se dela aos poucos, em frases soltas. E eu o via, ao longo de sua narrativa noturna, andando, sem um bastão, sem víveres, escalando gargantas de 4.500 metros ou progredindo ao longo de paredes verticais, sangrando os pés, os joelhos, as mãos, sob quarenta graus de frio. Exaurido pouco a pouco de seu sangue, de suas forças, de sua razão, avançava com uma teimosia de formiga, voltando sobre os passos para contornar um obstáculo, erguendo-se depois das quedas, subindo escarpas que iam terminar no abismo, sem se permitir nenhum repouso, porque não poderia se erguer, depois, de seu leito de neve.
Quando escorregava, precisava se levantar depressa, para não ser transformado em pedra. O frio o petrificava de segundo a segundo. Se quisesse gozar, depois de um tombo, um minuto de repouso a mais, quando tentasse se erguer só encontraria músculos mortos. 2
Era preciso resistir às tentações: “Na neve”, dizia-me você, “a gente perde todo o instinto de conservação. Depois de dois, três, quatro dias de marcha, tudo o que se deseja é o sono. Eu o desejava. Mas ao mesmo tempo pensava: ‘minha mulher... se ela crê que estou vivo, ela crê que estou andando. Os companheiros creem que estou andando. Serei um covarde se não continuar andando.”
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Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,
Oh! ditosa ventura!
Na escuridão, velada,
Já minha casa estando sossegada.
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E andava. Cada dia alargava um pouco mais, com a ponta do canivete, um corte na costura da botina, para que os pés gelados, inchados, ainda pudessem caber ali dentro.
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Recebi esta sua estranha confidência:
“Do segundo dia em diante, meu trabalho maior foi procurar não pensar. Sofria demais, minha situação era desesperada demais. Para ter a coragem de andar, precisava não pensar nisso. Desgraçadamente, controlava mal o cérebro: ele trabalhava como uma turbina. 3 Mas eu ainda podia escolher as suas imagens. Fazia-o pensar em um livro, em um filme. E o filme e o livro desfilavam dentro de mim depressa: voltava à realidade da situação presente. Irremediavelmente. Então eu jogava ao meu cérebro outras recordações para que ele fosse se entretendo…”
Uma vez, porém, tendo escorregado e caído de bruços na neve, você renunciou a erguer-se. Era como um pugilista de quem um murro mais forte exauriu toda a paixão da luta. E que ouve os segundos caírem, um a um, num mundo estranho, até o décimo, que é sem remédio. 4
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Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa, Sem outra luz nem guia 5
Além da que no coração me ardia.
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“Fiz o que pude e não tenho mais esperança; por que me obstinar no martírio?” Bastava fechar os olhos para fazer a paz no mundo. Para retirar do mundo os rochedos, o gelo, a neve. Logo que as pálpebras milagrosas se fechassem, já não haveria mais os golpes, nem os tombos, nem os músculos doridos, nem o gelo ardente, nem esse peso da vida quando a marcha de um homem é como a marcha de um boi e quando o peso da vida é mais pesado que um carro. Você já gozava aquele frio que era veneno, aquele frio que era morfina enchendo o corpo de beatitude. Sua vida refugiava-se em torno do coração. Alguma coisa de precioso e doce encolhia-se no centro de seu ser. A consciência pouco a pouco abandonava as regiões longínquas daquele corpo, daquela pobre besta esgotada pelas dores que já começava a participar da indiferença do mármore.
E mesmo os seus escrúpulos já se aquietavam. Nossos apelos não o atingiam mais, ou melhor, chegavam transformados em apelos de sonho. E você respondia feliz, andando em sonhos, em grandes passos fáceis que lhe abriam sem esforço as delícias da planície.6 Com que facilidade você andava agora em um mundo cheio de ternura! Avaramente, Guillaumet, você nos recusava a sua volta.
Os remorsos vieram dos subterrâneos da consciência. Ao sonho misturaram-se de repente detalhes precisos. “Pensei em minha mulher. Minha apólice de seguro de vida lhe evitaria a miséria. Sim, mas o seguro...” 7
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Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia,
Em sítio onde ninguém aparecia. 8
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No caso de desaparecimento, a morte legal só é declarada depois de quatro anos. Esse detalhe lhe apareceu nítido, apagando todas as outras imagens. Seu corpo estava estendido ali, de bruços, em um forte declive, na neve. Quando viesse o verão, ele rolaria, com a lama, para um dos mil precipícios dos Andes. Você o sabia. Sabia também que um rochedo emergia das neves cinquenta metros à sua frente.
“Aí eu pensei: se me levantar, poderei chegar até lá. Se escorar bem o meu corpo na pedra, ele será descoberto quando vier o verão...”
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Oh! noite que me guiaste,
Oh! noite mais amável que a alvorada 9
Oh! noite que juntaste
Amado com amada,
Amada já no Amado transformada! 10
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Uma vez de pé, andou duas noites e três dias.
Mas não pensava em ir muito longe:
“Muitos sinais me anunciavam o fim. Por exemplo, era obrigado a parar de duas em duas horas para abrir um pouco mais minhas botinas, esfregar neve nos pés que inchavam ou simplesmente dar um pequeno descanso ao coração. Nos últimos dias, comecei a perder a memória. Muito tempo depois de recomeçar a marcha é que me lembrava: havia esquecido alguma coisa. Da primeira vez foi uma luva, e isso era grave, com o frio que me gelava as mãos. Eu a havia deixado no chão, ao meu lado, e seguiria caminho sem apanhá-la. Depois foi o relógio. Depois o canivete. Depois a bússola. Em cada parada eu me empobrecia… 11
O que salva é dar um passo. Mais um passo. É sempre o mesmo passo que se recomeça…” 12
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Em meu peito florido
Que, inteiro, para Ele só guardava
Quedou-se adormecido,
E eu, terna, O regalava,
E dos cedros o leque O refrescava. 13
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“O que eu fiz, palavra que nenhum bicho, só um homem, era capaz de fazer...”
Essa frase, a mais nobre que conheço, essa frase que situa o homem, que o honra, que restaura as hierarquias verdadeiras, me voltava à memória. Você dormia ainda; a consciência estava abolida, mas iria renascer, no momento de despertar, naquele corpo desmantelado, moído, torturado, para dominá-lo de novo. O corpo, então, não é mais que um belo instrumento, não é mais que um belo servidor. E você sabia exprimir também, Guillaumet, esse orgulho do bom instrumento. 14
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Da ameia a brisa amena,
Quando eu os seus cabelos afagava
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava.
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“Você compreende, sem alimento, depois de três dias de marcha, meu coração não devia estar batendo com muita força... Pois em certo momento, quando eu progredia ao longo de uma encosta vertical, cavando buracos para enfiar as mãos, o coração me caiu em pane... Hesitou, deu mais uma batida... Uma batida estranha... Senti que se ele hesitasse um segundo mais seria o fim. Fiquei imóvel, escutando... Nunca — está ouvindo? — nunca, num avião, me senti tão preso ao ruído do motor como, naquele momento, às batidas do meu próprio coração. E eu lhe dizia: Vamos, força! Veja se bate mais... garanto-lhe que é um coração de boa qualidade. Hesitava, mas depois recomeçava, sempre... Se você soubesse como tive orgulho de meu coração!”
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Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado;
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado. 15
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Chamo a isto uma completa impossibilidade de viver nos termos comuns do cotidiano; é a vida comum que me expulsa, que me faz vagar, que me torna nômade e sem descanso. Reclamo a total solidão e a total liberdade, só dessas zonas extremas é possível reinaugurar alguma coisa nova, e se assim falo é porque já sinto no rosto o vento de novas paisagens. (Lúcio Cardoso)
O monge olímpico, distante do mundo que segue reverberando fora das paredes do monastério como uma lembrança distante. Estar dentro dos muros e fora do tempo. O tempo de pais e filhos, da espera e agonia. Então sair do tempo: um método para sentir por fora o que já senti por dentro.
Essa retirada pode, entretanto, vir antes do claustro e da capitulação. Em conta-gotas, como sabotagem existencial. A perversão talvez seja essa: estar e não estar no mundo. O esforço de se negar as coisas mais elementares — a sanha do masoquista — é maior do que o de efetivamente fazer essas coisas — o chicote do sádico.
Entupir-se apenas dos alcalóides que vão te dopar e envenenar aos poucos até que você não esteja mais lá. Obliterado de si mesmo, negar-se prazeres simples: ler, escrever, o próprio pau. Operar por inércia e às segundas acordar perguntando como e por que ainda está vivo. Esse holograma, uma imagem sem negativo.
O terror é uma ocasião de fuga, uma possibilidade de segredo e de renúncia à luz do dia. O terror é a época da criação no centro das catástrofes. (L.C.)
Aos 28 anos, já começando a ficar surdo, Beethoven escreveu uma carta de despedida aos irmãos. Sobre seus recorrentes pensamentos suicidas, diz: “Foi apenas a minha arte que me segurou. Parecia impossível para mim deixar este mundo antes de ter produzido tudo o que me sentia capaz de produzir, e assim prolonguei esta existência miserável — verdadeiramente miserável, por ter um corpo tão suscetível a uma mudança repentina que pôde me mergulhar do melhor para o pior dos estados.”
Uma tentativa: a fantasia do padre BDSM. Apesar da figura de autoridade, o traje carrega um evidente fracasso. É que o padre é por definição um celibatário, um ser de libido infantil. Sempre às voltas com seu próprio corpo ou representações alucinatórias que lhe povoam a mente. Alguém que decidiu renunciar à vida dos homens. Ou à melhor parte dela. Para percorrer um caminho de ascese via privação e sofrimento, como o de Cristo na cruz (esse símbolo religioso que é um instrumento de tortura)? A primeira razão da renúncia do padre talvez seja bastante o contrário: ele não quer sofrer. Menos por fraqueza ou covardia do que por ser esse homem irremediavelmente triste. E jamais adulto. Incapaz de suportar a dor de um coração partido.
E daí o amor a Deus, de quem sempre será um filho estéril. Um Deus que existe ou não existe, que nunca o abandona, ou que o abandona sempre: Deus ou a ausência de Deus, mas sempre absoluto. Definitivo. No mesmo lugar. (Sorrentino, Santo Agostinho)
Pensar na nossa cama, na revelação daquela cerimônia, me arremessa para a sensação vertical de que o presente pode ser agora, sem antes ou depois: a delicada urgência do vapor.
Se o passado, presente e futuro estão aterrados nesse momento, que tenham peso e massa suficiente para se empilhar um sobre o outro, como as lembranças perdidas na mente dos nossos deuses inevitavelmente farão: com graça e alguma beleza, anunciando o fim dos (desses) tempos.
O BDSM é performático, mas Kraus encontra sinceridade nisso. A primeira pessoa parece mais sincera, mas não deixa de ser um show. Por isso Kraus chama de “ingênuo” supor que “falar na primeira pessoa necessariamente conota algum tipo de verdade, sinceridade”. Ela põe em dúvida a sinceridade da primeira pessoa — o outro lado da sua busca por um sentimento autêntico dentro da performance.
“É impressionante o poder de um começo”, me escreve S. “Às vezes sigo num livro mesmo quando tudo começa a me dizer pra largar, quando já perco o interesse, só porque aquele primeiro parágrafo, aquela primeira página me pegou. Será que é assim com tudo na vida?”
O único modo de escapar do abismo é olhar para ele e medi-lo e sondá-lo e descer nele. (Cesare Pavese)
Quatro dias depois de começar a escrever sua carta de suicida aos irmãos, Beethoven assinalou um PS: “Portanto, despeço-me. Infelizmente aquela esperança carinhosa — que eu trouxe comigo, para me curar pelo menos até certo ponto — eu devo agora abandonar totalmente. Enquanto as folhas do outono caem e murcham, assim também a minha esperança foi arruinada. Parto daqui quase como vim. Até mesmo a grande coragem que muitas vezes me inspirou nos belos dias de verão desapareceu. Oh, Providência, conceda-me finalmente um dia de pura alegria. Faz tanto tempo que a verdadeira alegria ecoou em meu coração. Oh, quando devo senti-la novamente no templo da natureza e da humanidade? Nunca? Não, isso seria muito difícil.” O jovem Ludwig guardou o documento, depois chamado de “O testamento de Heiligenstadt, numa gaveta. Nunca o enviou. Morreria vinte e cinco anos depois.
Que eu alimente o mendigo, que eu perdoe uma ofensa, que eu ame meu inimigo em nome de Cristo — tudo isso é, sem dúvida, grande virtude. O que faço ao menor dos meus irmãos, isso faço a Cristo. / Mas e se eu descobrir que o menor entre todos eles, o mais pobre entre todos os mendigos, o mais insolente entre todos os ofensores, sim, o próprio demônio, está dentro de mim; e que eu mesmo necessito das esmolas da minha própria bondade; que eu mesmo sou o inimigo que precisa ser amado? O que acontece? / Então, em regra, toda a verdade do cristianismo se inverte: já não se fala de amor e longanimidade. Dizemos ao irmão dentro de nós: tolo, e nos condenamos, e nos enfurecemos contra nós mesmos. Nós o escondemos do mundo; negamos ter algum dia encontrado, em nós mesmos, esse “menor entre os humildes”; e, se fosse o próprio Deus a aproximar-se de nós nessa forma desprezível, nós o teríamos negado mil vezes antes que um único galo cantasse. (C. Jung)
Tradução de “A Noite Escura da Alma” (Ed. Vozes) pelas Carmelitas Descalças do Convento de Santa Teresa do Rio de Janeiro
Tradução de “Terra dos homens” (Ed. Nova Fronteira) por Rubem Braga







Precisava muito ler esse texto. Obrigada!